28.8.07

 

Saudação a Eduardo Prado Coelho



No passado sábado, 25 de Agosto de 2007, quando, de manhã, me deslocava de automóvel, para fim-de-semana, ouvi, na Rádio, a notícia da morte súbita de Eduardo Prado Coelho, de 63 anos de idade, figura de intelectual muito presente na Comunicação Social, onde dispôs sempre, pelo menos, ao longo dos últimos três decénios, de múltiplas tribunas, todas de forte visibilidade.

Depois de uma fase extremamente crítica da sua saúde, de que parecia ter recuperado, eis que a traiçoeira gadanha lhe ceifou toda a natural Esperança, aquela eternamente desejada companheira que nos vai animosamente impelindo na nossa caminhada, rumo a um fim antecipadamente conhecido, mas que sempre pretendemos prorrogar.

Muitas vezes dele discordei, algumas até expressamente o critiquei aqui, neste mesmo fórum, não porque lhe não reconhecesse méritos relevantes, mas porque a sua multímoda presença opinativa o levava para caminhos que lhe deviam impor certa contenção judicativa.

A última polémica em que me lembro de ele ter intervindo, quanto a mim, desacertadamente, ao lado do sociólogo Boaventura Santos, contra o físico António Manuel Baptista, foi na chamada «guerra das ciências», atrasada em Portugal, como quase tudo do foro cultural ou científico que aqui chega e, mesmo assim, de curta duração e limitada extensão participativa, não obstante a já significativa comunidade científica do País.

A falta de interesse em debater assuntos culturais ou científicos em Portugal, pelo único prazer de contribuir para o esclarecimento dos intervenientes e da comunidade, é antiga pecha e não se tem avançado nada neste campo, nem com o crescimento da escolaridade obrigatória, nem com o aumento do número de estudantes do Ensino Superior, nem com a proliferação de estabelecimentos de ensino dos graus médio e superior.

Parece continuar a existir receio generalizado de emitir opinião que desagrade a alguém. Poucos ousam quebrar esta regra tácita, de procurar passar despercebido ou só manifestar opinião que seja concordante com a de quem possa distribuir futuras prebendas.

Este costume tem efeitos perniciosos em toda a sociedade, porque fomenta o seguidismo, o conformismo e a apatia dos cidadãos, ou seja, fomenta tudo aquilo que contraria a existência de uma comunidade activa, consciente dos seus direitos e deveres de cidadania, com sentido interventivo, solidário e responsável.

Sem este sentido, o sistema democrático perde a sua razão de ser, qualquer ditadura serviria por igual a cidadãos temerosos, apáticos ou conformistas.

Por isso, o desaparecimento de pessoas como Eduardo Prado Coelho fatalmente empobrece o já debilitado ambiente cultural do País, mesmo sabendo que ele é dominado por uma conhecida corrente de gente tida por bem pensante, putativamente de Esquerda, nalguns casos, na verdade, apenas nominal, mas com laços antigos entre si, que ajudam a manter essa aura de pretensa superioridade cultural.

Eduardo Prado Coelho, neste aspecto, estava demasiado comprometido, dando guarida cultural a muito aprendiz ou aspirante a intelectual do nosso burgo, que, só gozando desse tipo de cobertura, por parte de certas figuras influentes, se mantém com pretensão a tal estatuto. Ninguém é perfeito e EPC tampouco o era.

Contudo, manda a tradição latina, de que somos legítimos herdeiros, não dizer mal dos mortos, sobretudo dos recentes, antes relevar as suas qualidades morais, intelectuais e cívicas, as suas virtudes, etc., que, na verdade, Eduardo Prado Coelho possuía, sem precisar da enorme cobertura oficial que de todo o lado o cortejava.

Nascido em cultural berço de ouro, com um pai Jacinto Prado Coelho, Catedrático de Literatura, académico brilhante, rodeado desde muito cedo de imensos livros e bibliotecas, convivendo desde menino com famosos intelectuais, como António José Saraiva, seu padrinho, iria, por isso, dispor de condições sumamente favoráveis à formação e desenvolvimento do seu intelecto.

De resto, saberia aproveitar, com excelente resultado, reconheça-se, todos os factores favoráveis que, nesse sentido, os fados lhe haveriam de proporcionar.

A sua lendária capacidade de leitura, quase omnívora, era comummente assinalada por todos os que com ele conviviam, pessoalmente ou por intermédio dos livros, das crónicas, dos artigos, dos ensaios ou dos colóquios em que era assíduo. Por vezes até, essa sua afamada característica algo nos irritava, já que se excedia nas citações abundantíssimas que fazia, em qualquer intervenção, mais por auto-recreação do que por mero exibicionismo, quero crer.

No que se refere à cultura francesa, sobretudo, era torrencial: nas artes, na literatura, no cinema, na psicanálise, na crítica literária, etc., mostrava uma atenção permanente ao que se passava na pátria de Montaigne e Descartes e, principalmente, daquilo que era tido por moda ou vanguardismo artístico-intelectual, em Paris, onde estanciou largamente, nas diversas funções culturais que desempenhou.

Nenhum outro nosso intelectual, depois de Eça, associamos tanto a Paris como Eduardo Prado Coelho. Não sei se era portador de alguma condecoração do Estado francês, mas se o era, sê-lo-ia de forma inteiramente merecida, pela intensa divulgação cultural francófona que permanentemente desenvolveu.

Como disse, apesar de ter discordado dele inúmeras vezes, tinha-o por figura de intelectual respeitável, que ousa sair dos claustros universitários para vir intervir na ágora, na praça pública, arriscando o seu prestígio na afirmação de opiniões, tomando partido nas mais variadas causas que surgiam, emitindo a sua visão dos problemas quotidianos da sociedade contemporânea, sujeitando os seus juízos, as suas ideias, à crítica dos demais cidadãos.

Tenho, de há muito, esta atitude por deveras louvável. Desagrada-me, particularmente, o predomínio dos públicos sábios mudos, de quem não se conhece o pensamento sobre matérias relevantes da vida do País, mas que, depois, sorrateiramente, vão abichando lugar atrás de lugar, na hierarquia do Estado, medindo palavras e atitudes, alinhando-as sempre com os diversos Poderes institucionais que se aprestam a servir com lealdade estudada.

Estimo muito mais aqueles que intervêm em defesa das suas ideias, agradem-me elas ou não, as manifestam, para que as conheçamos, analisando-lhes os méritos ou os despropósitos, para podermos assim apreciar o seu contributo, desde que sincera e frontalmente expresso.

Sempre isto é preferível, mesmo quando abertamente discordamos do que «vemos, ouvimos e lemos», ao espectáculo da matreirice, da surda ronha concertada com todos os Poderes ou com as figuras que imaginadamente os podem conceder.

Neste âmbito, sim, pode dizer-se, sem receio de errar, que Eduardo Prado Coelho vai fazer-nos falta, a nós portugueses, pouco dados à discussão séria, informada, dos assuntos que verdadeiramente importam na nossa vida e não apenas de atenção dedicada aos tornozelos das vedetas do Futebol, afogadas em dinheiro, que esbanjam sem pudor, na medida da facilidade com que o ganham, embora, em abono da verdade, deva dizer-se que não são os jogadores os culpados da presente euforia, completamente alienante a que assistimos, em tudo o que respeita ao Futebol, de clubes ou de selecções.

Eduardo Prado Coelho foi talvez, entre nós, o que mais se aproximou do modelo de intelectual parisiense, interventivo inveterado, esquerdizante por natureza, irreverente q.b., amigo de causas fracturantes, mesmo das inúteis, capaz de descobrir interesse em qualquer futilidade, valorizando-a com um discurso, um enquadramento eminentemente intelectual, ao jeito de Roland Barthes, de resto, personalidade que EPC certamente gostaria de emular.

No entanto, discutindo sempre, expondo o seu pensamento e submetendo-o a escrutínio alheio, sem fugir à liça. Nisto vai notar-se a sua falta.

Que lá onde se ache a alma erudita deste nosso compatriota, ela descanse em paz, se é que a leitura, sua terrena paixão permanente, nessas misteriosas, hipotéticas paragens, não lhe esteja, afinal, inexoravelmente defesa.

Se assim for, espero que o Bom Deus lhe conceda, nesse ponto, honrosa e justificada excepção.


AV_Lisboa, 28 de Agosto de 2007

PS : Costuma discutir-se se será ou não insubstituível a pessoa de cultura ou de ciência que desaparece. Parece-me, no entanto, bastante ociosa a discussão. Evidentemente que será insubstituível naquilo que era a sua genuína identidade, como acontece com qualquer comum dos mortais. Todos nós, naquilo em que nos tornámos absolutamente distintos dos demais, únicos, na diversidade do Universo, seremos um dia também considerados insubstituíveis, mas, apesar disso, substituídos…Infalivelmente, … ad saecula saeculorum…

Comments:
Li muito pouco de Prado Coelho.O que me leva ainda mais a lamentar a sua morte. Porque o pouco que li, só em revistas e jornais, me revelou uma clarividência pouco comum nos dias de hoje. Não tinha papas na língua.
Actualmente a regra, é seguir a onda. E a diferença entre os "melhores" e os piores reside apenas em estar ou não na crista da tal onda.
 
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